The circle of life

8 05 2011

Nossa cultura, forma de vida, organização da sociedade, família, nos preparam para viver o mundo. Uma criança, quando brinca, ensaia a vida e assim, se prepara melhor para ela!

Desta forma, assim como em qualquer sociedade, temos alguns tabus. Posso citar rapidamente o homossexualidade, o sexo e a morte. Os dois primeiros, pode ser que tenhamos que vivenciar ou não, mas o último é a única certeza na vida de qualquer ser vivo. Todos nascemos, crescemos, nos desenvolvemos e morremos. Pq então, quando isto ocorre, é algo tão chocante, tão difícil, tão estranho? Estou passando por isto, o que me faz refletir.

Nossas emoções, num momento como este, se misturam. Temos a saudade da pessoa que se foi, mas também dos bons momentos que passamos juntos. Temos o amor que sentimos por ela, temos a dor da perda, dor esta estranha, que dificilmente se explica. Temos nostalgia, de tudo o que vivemos juntos, enfim, muitas coisas se misturam. Ficamos levemente irracionais, sim, não prestamos muita atenção nas coisas (uma defesa do corpo), ficamos atentos, perdemos o sono, nos comovemos, choramos….

A minha forma de encarar este momento é um pouco diferente da de muitas pessoas. Eu prefiro lembrar das coisas boas que passamos, dos momentos bons, felizes que tivemos, brincar, descontrair, encarar o momento como algo natural (o que de fato é!). Chorar, claro, é natural, ficar triste também, mas será que querer manter as pessoas aqui, conosco, para sempre, não é um pouco de egoísmo de mais? O ciclo da vida é assim, nosso corpo e mente vai envelhecendo, vai ficando limitado, com menos condição de seguir em frente. É hora então de desligar esta máquina perfeita, o corpo, que ainda não conseguimos entender por completo.

O que acontece então? Cada religião tem sua crença, cada povo, os seus ritos, cada pessoa, a sua forma de encarar o momento. Isso precisa ser respeitado, entendido, trabalhado. Falar sobre este assunto é fundamental, ajuda muito na hora em que acontece. Mais do que isto, trabalhar internamente este fato, entender (antes de aceitar) que isto acontece com todos nós já é um caminho. É assim, encerra-se um ciclo, mas muitos outros se iniciam.

Vovó Pipoca, que fazia pudim de leite, biscoito de “pum” com requeijão e que deixava a gente dormir com uma garrafa de vidro de sprite do lado da cama, nos deu tchau hoje. Vovó Pipoca que no auge dos seus 95 anos dizia para seu filho mais novo que ele precisava tomar Gincobilomba (nem sei se é assim que escreve) pois estava muito esquecido. Ela que fazia as contas dos índices financeiros, tudo de cabeça, depois de escutar no rádio, e mandava a gente confirmar o valor que a aplicação dela deveria ter rendido no mês. Dava presente de aniversário, natal e páscoa, dinheiro, pra gente “comprar um sorvete, uma bobagenzinha” com o valor que dava pra comprar a sorveteria inteira.

Fazia algum tempo que sabíamos que isto aconteceria, afinal de conta, 95 anos não é para qualquer um. Fazia um tempo que eu, sem conversar com ninguém, me preparava pra isto. Não sei se foi bom, ruim, acho que só terei certeza depois de alguns anos. Depois de viver o luto (mas sem roupa preta e cara amarrada, coisa da Idade Média). Respeito pelas pessoas a gente tem em vida, não é com uma roupa assim que vou demonstrar o que passamos.

Respeito, amor, saudade, nostalgia, dor…. Isto tudo a gente tem que viver com as pessoas, tem que aproveitar, conversar, abraçar, beijar. Dizer que gosta, ama, sente saudades. Lembrar de histórias, momentos únicos e bons, respeitar e ser respeitado. Afinal de contas “o que se leva da vida, é a vida que se leva….” por isto, eu vou levando a minha da melhor maneira possível 🙂

Um beijo, minha Vó!

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